A questão do inato e do adquirido no estudo do desenvolvimento psicológico: algumas anotações para a disciplina Psicologia do Desenvolvimento II

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Profa. Maria Regina Maluf
IP/USP Novembro de 2002

A controvérsia sobre o papel da hereditariedade e do meio no desenvolvimento da criança é um tema recorrente, sobre o qual pesquisas e debates são realizados, não só na Psicologia, mas também em outras áreas do conhecimento.

O desenvolvimento psicológico é um processo que ocorre num indivíduo humano portador de uma herança genética, situado em um meio social e cultural. A questão da relação entre herança biológica e sociedade está presente de diferentes maneiras nas teorias psicológicas e particularmente nas explicações a respeito de como se dá o desenvolvimento psicológico, estudado em seus diferentes aspectos: psicomotor, emocional, linguístico, perceptivo, operatório.

A partir sobretudo dos anos 80, com os progressos da biologia molecular, dos estudos sobre o cérebro, dos estudos etológicos, da antropologia, das ciências sociais, foi possível identificar o caráter extremamente ideológico de algumas respostas, pretensamente científicas, que colocavam o fundamento da igualdade ou da desigualdade entre os indivíduos na raça, nos genes, no quociente intelectual (QI), na classe social, acabando sempre por justificar as segregações. As pesquisas mais atuais da genética, embriologia, neurobiologia, etologia, sugerem ( Skrzypczak, 1989, p. 95) que, longe de se oporem, a hereditariedade e o meio se completam em seus papéis necessários. Na evolução animal há uma passagem dos comportamentos resultantes de códigos genéticos estritos para outros que não são totalmente programados. Cada ser humano possui as características de sua espécie, mas ao mesmo tempo o código genético permite enormes possibilidades de variação em função do meio educativo. Pode-se dizer que ao nascer o indivíduo apresenta potencialidades que só se atualizarão através de aprendizagens culturais, ou seja, ele nasce apto a adquirir todas as culturas.

É assim que aprendemos a ser brasileiros, chineses, operários, camponeses, delinquentes ou virtuosos, artistas ou professores.

Os seres humanos são iguais em alguns aspectos, semelhantes em outros e únicos em sua identidade. A origem das semelhanças e diferenças ainda não está suficientemente explicada, mas já é possível superar algumas respostas reducionistas. Neste final de século, as novas tendências apontam para a relevância de se estudar a construção cultural do desenvolvimento infantil, implementando pesquisas multidisciplinares e interculturais, e, como apontam Deleau & Weil-Barais (1994), resgatando a importância das pesquisas comparativas renovadas, que se interessam pelas redes de variáveis em interação (Maluf, 1998).

Como lembramos no início destas notas, a questão de saber se as desigualdades são inatas ou adquiridas não obteve ainda respostas definitivas, ou melhor dizendo, com suficientes evidências empíricas para merecerem o estatuto de teses vigorosas. Como lembra Skrzypczak (1989), já Rousseau considerava que na espécie humana são encontrados dois tipos de desigualdades. A primeira, que ele denominava natural ou física, por ser estabelecida pela natureza: diferença de idade, de saúde, de forças corporais e qualidades da mente ou da alma. E a outra, que ele denominava desigualdade moral ou política, porque depende de uma espécie de convenção, e que é estabelecida, ou ao menos autorizada, pelo consentimento dos humanos. Aqui situava Rousseau os privilégios de que uns gozam em detrimento dos outros: ser mais rico, mais honrado, mais poderoso.

Podemos perguntar-nos se essa distinção ainda tem sentido nos dias de hoje. Existiriam realmente desigualdades naturais que determinariam qualidades diferentes da mente? As ciências contemporâneas não estariam oferecendo-nos exemplos ainda mais gritantes de desigualdades naturais entre os homens? As desigualdades que vemos na sociedade não deveriam ser vistas como consequências diretas e legítimas das desigualdades naturais, por natureza irredutíveis? Voltamos então à questão inicial: as desigualdades são devidas ao que é inato no ser humano ou àquilo que é adquirido, isto é, às suas aprendizagens sociais?

Ao buscar respostas a estas questões, torna-se indispensável buscar apoio em teses capazes de ir além do caráter mítico e ideológico do nosso discurso. Nessa perspectiva, descobriremos às vezes aceitamos teses sem evidência empírica e que muitas questões, sobretudo no campo da inteligência, são questões que não possuem ainda respostas científicas.

Admitimos, com Bril e Lehalle (1988, p.8), que em nossos dias os comportamentos não devem mais ser vistos como resultantes de uma adição de determinantes genéticos e epigenéticos, cujas partes poderiam ser precisadas. Ao contrário, todo comportamento, toda “potencialidade expressa”e todo desenvolvimento, resultam de uma ação conjunta e interativa desses determinantes.
A evolução nos estudos dos determinantes da conduta (quer se trate de estudos experimentais das relações entre genes e comportamentos, quer se trate de estudar gêmeos e crianças em situação de adoção) levam-nos a admitir que é a relação entre o equipamento genético e as condições do meio que se encontra no coração da construção comportamental e que esta relação é complexa e interativa.
Fizemos aqui apenas algumas considerações sobre uma das questões mais complexas da psicologia do desenvolvimento. Concluímos sinalizando a complexidade das relações entre genes e características fenotípicas. Não há entre genes e meio uma ligação fixa e invariável; ao contrário, deve-se admitir que se encontram em interação. O genoma vem antes, pois está presente desde a fecundação; os elementos do meio exercem influência cronologicamente posterior. Mas, todo comportamento resulta de uma construção e quanto maior a complexidade do genoma, mais numerosos e diversificados são os efeitos do meio. Isto nos impede de dar uma resposta definitiva, no estágio em que se encontram nossos conhecimentos, para a questão de saber qual é a parte respectiva do genoma e qual a parte do meio, mais além de hipóteses desafiadoras, que ainda necessitam comprovação.

Referências
Bril,B. & Lehalle H.(1988) Le développement psychologique est-il universel? Paris, PUF.
Deleau, M. & Weil-Barais, A.(1994) Le développement de l’enfant. Approches comparatives. Paris, P.U.F.
Deleau, M., Inné et Acquis, In: Ghilione & Richard, Cours de Psychologie. Rennes, Centre Nationale, s/d
Maluf, M. R., (1998) Tendências Contemporâneas no Estudo do Desenvolvimento Psicológico e Educação. In: Educação e Formação,Universidade de Taubaté, p. 78-85.
Skrzypczak, J.-F.(1989) L’Inné et l’Acquis. Inégalités “naturelles”, inégalités “sociales”. Lyon, Chronique Sociale.

1 comentários:

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biasilverio1
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15 de outubro de 2015 06:52 delete

Nossa, que trabalho excelente. Parabéns!

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